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Sob o manto da “democracia”, a Igreja embarca de novo no jogo político em Serra Talhada

Serra Talhada será palco, entre os dias 31 de julho e 2 de agosto, da chamada “Caravana da Democracia”, que terá como nome de peso a presença do padre Júlio Lancellotti. E aqui já vale um parênteses: não é novidade para ninguém que o padre é uma figura umbilicalmente associada à esquerda brasileira e ao entorno do governo Lula. Não é opinião minha, é histórico público.

A programação, à primeira vista, é toda organizada em torno de causas nobres. Na sexta-feira (31), às 8h30, no Senac, um encontro reúne padres, diáconos, lideranças de pastorais, movimentos sociais, comitê da população de rua e o Ministério Público. Às 14h, entrevista coletiva com a imprensa local e regional — porque toda “ação pastoral” hoje precisa de assessoria de imprensa e agenda com a mídia.

No domingo (2), a programação segue com visita à Comunidade Boa Nova, no Sítio Juazeirinho, às 11h, e à Casa de Passagem, que acolhe pessoas em situação de rua, às 14h. O encerramento é às 19h, com Santa Missa na Concatedral Nossa Senhora da Penha, presidida por Dom Limacedo Antônio, com a participação do padre Lancellotti e de padres e diáconos da Diocese de Afogados da Ingazeira.

Tudo muito bonito no papel. Mas quem acompanha a conjuntura política do país sabe reconhecer um script. “Democracia”, nos últimos anos, tornou-se praticamente sinônimo de bandeira de um lado só do espectro político — e não é segredo nenhum que boa parte da hierarquia católica progressista tem atuado, de forma cada vez menos discreta, como vitrine moral de projetos políticos alinhados à esquerda e ao lulismo.

Chamar um evento de “Caravana da Democracia” e colocar como protagonista um padre conhecido nacionalmente por sua militância política não é um gesto neutro. É comunicação. É estratégia. É, no mínimo, um recado.

Ninguém aqui questiona o trabalho social do padre Lancellotti junto à população de rua, isso é reconhecido e legítimo. O que se questiona é o verniz: usar a estrutura da Igreja, a agenda pastoral e a comoção social para, de forma velada, reforçar um discurso político que interessa a um lado só da disputa — justamente num momento em que o país caminha para eleições decisivas.

Fé é uma coisa. Militância travestida de fé é outra, bem diferente. E cabe à população de Serra Talhada e do Sertão pernambucano ficar atenta ao que está por trás do discurso bonito.

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