A recente visita da governadora Raquel Lyra a Serra Talhada foi marcada por anúncios importantes, mas também por duas ausências que carregam peso simbólico e político. A primeira delas, da prefeita Márcia Conrado, que alegou motivos pessoais — a internação da filha — para não comparecer. A segunda, de Ilma Valério, ex-candidata a prefeita de Carnaíba, que também justificou sua ausência por questões de saúde familiar. Embora ambas as explicações sejam humanamente compreensíveis, politicamente, soam frágeis diante do contexto mais amplo que envolve os bastidores da política pernambucana.
Márcia Conrado, outrora alinhada ao governo estadual — relação que resultou, inclusive, na conquista de uma faculdade de medicina para Serra Talhada —, agora está claramente no campo de João Campos, provável adversário de Raquel em 2026. A justificativa oficial de sua ausência pode até ser real, mas a leitura política é inevitável: a prefeita, cada vez mais vinculada ao PSB, preferiu evitar a cena pública ao lado da governadora. A ausência foi estrategicamente calculada para não comprometer o novo alinhamento. A dúvida que paira é: até que ponto a prefeita de Serra Talhada está disposta a romper pontes com o Palácio das Princesas em nome de seu novo projeto político? Ou ainda pretende manter as portas entreabertas, usando a justificativa pessoal como escudo conveniente?
No caso de Ilma Valério, a ausência durante a visita da governadora ganha contornos ainda mais delicados. Enquanto os principais nomes da oposição de Carnaíba se reuniam com Mendonça Filho — figura de prestígio junto ao governo estadual —, ela alegava estar em Recife, cuidando da saúde do pai. Coincidência ou estratégia? A ausência isolada de Ilma, somada à presença de Gleybson Martins (seu ex-vice), Matheus Francisco, Didi e outros, sugere que o grupo oposicionista começa a seguir outro rumo, mais pragmático e alinhado a Raquel. Vale lembrar que Ilma foi candidata pelo Republicanos, partido ligado a Álvaro Porto, presidente da Alepe e hoje desafeto direto de Raquel Lyra. Estaria ela evitando, de fato, o constrangimento político de estar ao lado de uma ex-aliada de Porto? E, nesse caso, por quanto tempo mais ela conseguirá manter essa ambiguidade?
Se a ausência de Márcia indica realinhamento com a oposição estadual, a de Ilma revela um dilema: ela segue presa a um grupo que já busca outras articulações, enquanto tenta manter coerência com o bloco que a lançou em 2024. A pergunta que se impõe é: Ilma terá força para liderar um projeto em 2028 se continuar andando em rota contrária aos seus aliados imediatos? Ou será, com o tempo, isolada por aqueles que já perceberam que a chave para destravar recursos e apoio estadual passa por interlocutores mais conectados ao Palácio do Campo das Princesas?
As ausências foram justificadas, mas o silêncio do gesto falou mais alto.